Nós convivemos com cada figura que a vida nos entrega como quem coleciona pequenos desastres adoráveis. É curioso perceber como certas manias que, num desconhecido, nos fariam apertar o botão do cancelamento instantâneo, nos amigos viram assunto para risada e, às vezes, até patrimônio afetivo. Parece que a estranheza deles combina com a nossa, como duas peças tortas que, por milagre, se encaixam.
Nós toleramos atrasos épicos, opiniões atravessadas e tiques nervosos que, em qualquer outra pessoa, seriam motivo para bloqueio sem direito a recurso. Mas, com amigos, essas esquisitices ganham charme de item colecionável. Viram histórias que contamos como quem narra uma epopeia doméstica, com direito a exagero, dramatização e aquela gargalhada que faz doer o abdômen.
Sabemos que amizade boa é feita desse pacto tácito em que ninguém exige perfeição. Aliás, é justamente a imperfeição que dá graça ao enredo.
Não buscamos seres iluminados, buscamos cúmplices capazes de rir quando tropeçamos — e, principalmente, quando eles tropeçam. Há algo de profundamente libertador em compartilhar falhas sem cerimônia, como quem exibe um defeito de fábrica com orgulho.
Nós percebemos que quanto mais longa a amizade, mais vasto o repertório de manias que aprendemos a apreciar. O amigo que repete a mesma história mil vezes, o que faz drama por tudo, o que some por semanas e reaparece como se nada tivesse acontecido. Em outro contexto, seria caso de intervenção. No nosso, é só terça-feira.
Criamos esse ecossistema de afeto onde cada idiossincrasia tem vaga cativa. Rimos do que deveria irritar, celebramos o que deveria afastar e seguimos adiante com a serenidade de quem já aceitou que ninguém presta totalmente — começando por nós mesmos. E talvez seja essa honestidade despretensiosa que torna tudo tão confortável.
E continuamos juntos porque, no fundo, amizade duradoura é exatamente isso: a arte delicada de achar graça naquilo que, num estranho, nos faria fugir para as colinas. Entre risos, provocações e pequenas teimosias, seguimos construindo um laço que não precisa fingir que é perfeito — só precisa caber no abraço.






