Somos os únicos. Nenhum outro ser do planeta precisa lidar com esse pacote completo de liberdade e inquietação. A lagarta vira borboleta sem drama. O leão caça sem culpa. O passarinho canta sem se perguntar se não deveria estar estudando para um concurso público. Nós, não. Nós temos o tal do livre-arbítrio — essa bênção travestida de armadilha filosófica.
E esse presente evolutivo transforma cada escolha simples numa balança existencial: “Vou ou não vou?”, “Aceito ou recuso?”, “E se eu me arrepender?”. Como se cada decisão fosse um referendo universal, com direito a júri interno e multa por desacordo moral.
Somos tão evoluídos que criamos a culpa antes mesmo de agir. Culpamo-nos por ter feito, mas também — e talvez até mais — por não ter feito. Se decidimos, pesa. Se adiamos, pesa mais ainda. E nem precisamos de plateia. O tribunal funciona bem aqui dentro. Juiz, réu e promotor convivem em nós, em turno integral.
O pior é que, mesmo quando não escolhemos, já escolhemos. A omissão, no mundo do livre-arbítrio, não é neutra. É decisão com assinatura. Não basta ter consciência: temos que carregar o recibo das intenções. A anta, o golfinho e o panda não sofrem por suas decisões. Mas nós, pobres sapiens, sim.
E quando tentamos nos aliviar da culpa, buscamos culpados externos: o trânsito, o pai ausente, a dieta, o signo. Mas, no fundo, sabemos: fomos nós. Sempre nós. Nossa mente é uma máquina de escavar causas onde, muitas vezes, só havia uma vontade mal dormida e uma coragem faltante.
Ainda assim, é fascinante. Ser livre é também ser responsável. E ser responsável é dançar com a angústia sem perder o ritmo. Que outro animal tem esse privilégio torto? Nenhum. Só nós. Um bando de primatas aflitos, sentados em cima do próprio rabo, discutindo com o espelho se a decisão de ontem vai nos azedar o café de amanhã.
Pois é. Queríamos liberdade. Ganhamos também a conta.






