Ninguém escapa da condição humana. Não sonos felizes todo o tempo. Todos enfrentam invernos internos.

Felicidade é uma experiência neurológica, na qual temos a sensação momentânea de que nada nos falta.

Quando escrevi essa frase no início dos anos 2000, falar de felicidade ainda soava como uma trivialidade. Hoje, duas décadas depois, ela virou tema acadêmico: o curso mais concorrido de Harvard é justamente sobre isso e tornou-se objeto de desejo coletivo, matéria de estudo e, para muitos, uma obsessão.

O pensador Alain de Botton já dizia que a felicidade constante é um mito moderno. E, sejamos justos: ele está certo. Em minha própria trajetória, observei que os momentos de felicidade se assemelham a ondas. Chegam, encantam e se transformam. O que era euforia hoje vira lembrança. Assim como as estações, os estados de alma mudam. Há algo de poético — e também de melancólico — nessa impermanência.

O mais intrigante, porém, é a forma como mascaramos essa instabilidade. As redes sociais, por exemplo, vendem uma narrativa contínua de sucesso, amor e saúde. Uma vitrine emocional onde todos sorriem o tempo todo. Mas convenhamos: a ausência de fissuras é sempre suspeita.

Se fossemos mais honestos, talvez admitíssemos que a maior parte da vida é composta por episódios neutros. Nem dramáticos, nem arrebatadores. Apenas comuns. E, às vezes, é nesse lugar despretensioso que repousa um tipo silencioso de contentamento. Não aquele que estampa dentes brancos em fotos de viagem, mas o que sussurra suavemente na rotina não idealizada.

Há também o desconforto de comparar os bastidores da nossa existência com o palco iluminado dos outros. E isso, inevitavelmente, nos distancia de nós mesmos.

Convém lembrar que ninguém escapa da condição humana. Todos enfrentam invernos internos, dias nublados, vontades não atendidas. A vida é um vaivém de humores, conquistas e perdas. A busca por algo que dure o tempo todo talvez seja, justamente, o que mais nos impede de reconhecer e acolher aquilo que já temos.

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Conheça o Jojo

Filósofo nas horas vaga, tem uma curiosidade inata pelo comportamento humano, realizando paralelos muito instigantes entre o ser humano e a evolução das espécies, tema sempre muito presente em todas as suas palestras e cursos, e muito apreciada pelo seu público.

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