Saímos das savanas para os apartamentos. Do vento no rosto para o ar-condicionado. Evoluímos tanto que já conseguimos passar dias inteiros sentados, o que, convenhamos, seria considerado uma estratégia de sobrevivência duvidosa na Idade da Pedra.
O pão de cada dia já não vem do esforço físico, mas do clique persistente, da reunião interminável e da épica batalha contra o trânsito. Caçávamos mamutes. Hoje, caçamos Wi-Fi estável.
E assim, entre telas, notificações e cafezinhos estratégicos, tornamo-nos sedentários de alta performance. Um paradoxo admirável: fazemos tudo, sem sair do lugar.
Mas há um detalhe curioso. Nosso corpo não recebeu o memorando da modernidade. Ele continua reagindo como se um tigre estivesse prestes a nos atacar, mesmo quando o perigo real é um e-mail de cobrança.
O coração acelera, a respiração encurta, os músculos tensionam. Tudo pronto para correr… e nós apenas abrimos outra aba no navegador.
Os antigos predadores deram lugar à crise econômica, aos boletos e às relações instáveis. Mudaram os cenários, mas o organismo insiste em interpretar tudo como ameaça iminente.
No fim das contas, talvez o maior predador moderno não esteja lá fora. Ele surge desse curioso desencontro entre uma mente cercada por inteligência artificial e um corpo que ainda acredita, com convicção, que vive na Idade da Pedra.






