Começa quase sempre da mesma forma: dois olhares tensos e dedos apontados, como se a verdade tivesse dono. Cada um convicto de sua razão, cada um determinado a provar o erro do outro. E, nesse embate silencioso, algo mais profundo se instala.
O conflito aparente é barulhento, mas a perda real é discreta. Enquanto discutimos quem falhou, deixamos escapar aquilo que sustenta qualquer reconstrução: a própria força interna. Sem perceber, terceirizamos o comando da nossa vida.
É curioso notar como atribuir culpa oferece um alívio imediato. Quase um consolo. Se o outro errou, estamos livres. Mas a conta vem depois. E costuma ser alta.
A cada transferência de responsabilidade, diminuímos nosso campo de ação. Entregamos ao outro não apenas a culpa, mas também a capacidade de mudança. E, aos poucos, vamos nos tornando reféns das circunstâncias que ajudamos a sustentar.
E não se trata apenas de relações afetivas. Repetimos esse padrão com eventos, com o passado, com o acaso. Sempre há um culpado conveniente à disposição.
O resultado é um estado constante de fragilidade disfarçada. Uma narrativa interna que justifica, explica, mas raramente transforma. Seguimos, assim, protegidos… e limitados.
No fim, talvez o maior prejuízo não esteja no conflito em si, mas naquilo que abrimos mão enquanto tentamos vencê-lo. Porque há perdas que não fazem barulho, mas moldam destinos.






