A pressa é inimiga do corpo, a negligência é inimiga da alma, e nós seguimos no meio-fio, entre a disciplina e alguma malemolência, para temperar o cotidiano.

A pressa é inimiga do corpo, a negligência é inimiga da alma — e nós, claro, tentamos fazer amizade com ambas, como quem negocia com gatos temperamentais. No fim, percebemos que cada uma exige seu próprio pedestal: uma nos empurra, a outra nos deixa largados no sofá. E há dias em que conseguimos escapar das duas, escorregando pelo cotidiano como quem foge de parentes inconvenientes.

A vida, caprichosa, adora nos ver nessa coreografia improvisada. Corremos para um lado, esquecemos do outro, exageramos no zelo ou no desleixo, e ainda assim fingimos que está tudo sob controle. Talvez seja esse o charme involuntário da existência: um desfile de trapalhadas coreografadas com requinte de quem tenta parecer sábio enquanto procura os óculos que estão no bolso.

Seguimos no meio-fio, equilibrando o rigor de um monge com a elasticidade de um sambista. É um território estreito, mas suficientemente largo para nossas pequenas contradições. Ali, descobrimos que o exagero pesa e a omissão evapora, e que a graça mora justamente nessa oscilação entre o firme e o maleável — como um elástico que não rompe, mas também não estrangula.

A disciplina, tão exaltada, ganha outro sabor quando combinada com uma pitada de malemolência. É como se a vida nos oferecesse um tempero secreto, desses que ninguém revela a receita. Um toque a mais, um afrouxar mínimo, e de repente tudo deixa de ser martírio e vira brincadeira séria, daquelas que exigem empenho, mas concedem risadas ocasionais.

Nesse jogo curioso, descobrimos que a pressa é ótima para espantar tédio, embora estrague nossa coreografia interna. Já a negligência, por sua vez, é excelente anfitriã: acolhe, embala, mas nos deixa meio adormecidos diante do próprio enredo. Entre as duas, dançamos, tropeçamos e seguimos, ora vibrando, ora cochilando.

No fim, percebemos que temperar o cotidiano é quase uma arte performática, repleta de improvisos. Somos artistas dessa trama meio cômica, meio filosófica, tentando harmonizar virtude com humor e firmeza com leveza. E, enquanto caminhamos sobre esse meio-fio existencial, descobrimos que a vida, apesar de suas diabruras, adora um espetáculo bem interpretado.

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Conheça o Jojo

Filósofo nas horas vaga, tem uma curiosidade inata pelo comportamento humano, realizando paralelos muito instigantes entre o ser humano e a evolução das espécies, tema sempre muito presente em todas as suas palestras e cursos, e muito apreciada pelo seu público.

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