Nós conhecemos bem essa cena: alguém, tomado por uma alegria tão inesperada quanto um bônus no extrato bancário, solta aquele clássico “estou tão feliz que poderia morrer agora”. A frase é dramática, claro, mas revela algo curioso sobre nós. Quando a vida finalmente encaixa — mesmo que por alguns minutos — o medo da morte parece tirar férias, talvez numa praia silenciosa, longe do nosso barulho interno.
É como se o receio do fim estivesse diretamente ligado ao quanto nossas expectativas conversam com a realidade. Quando as duas se abraçam sem brigar, experimentamos essa sensação de alinhamento raro, quase um eclipse emocional. Nesse instante, o aniquilamento perde força, como um vilão que ficou sem falas no roteiro.
Mas nós sabemos: a tal plenitude tem prazo curtíssimo. A felicidade é volátil, espevitada, quase infantil. Surge do nada, faz festa, derruba umas coisas pelo caminho e, antes que possamos servir o café, já escapou pela janela. Não é má vontade; é o jeito dela existir.
E mesmo assim, essa criatura caprichosa retorna. Reaparece num olhar, numa música, num momento sem importância aparente. Depois some de novo, com a velocidade de um desconto relâmpago que não conseguimos aproveitar. Uma gangorra hormonal legítima, dessas que nos deixam tontos e sorrindo ao mesmo tempo.
Naturalmente, vem junto uma pitada de frustração — porque ninguém mantém esse estado elevado por muito tempo. Ainda assim, reconhecemos que viver sem essas fagulhas seria como assistir a um filme sem trilha sonora. Funciona, mas perde a graça.
Então seguimos assim: rindo da nossa própria oscilação, celebrando quando dá, reclamando quando some, e acolhendo essa felicidade brincalhona que, mesmo pueril, faz a vida ter mais cor do que caos.






