Diante dos tropeços, é quase sempre mais fácil apontar o dedo para o céu, para o inferno ou para as engrenagens invisíveis do azar. É uma prática milenar. Quando tudo desanda, buscamos rapidamente um culpado que não esteja no espelho. Afinal, admitir que fomos nós quem escolhemos a trilha que levou ao despenhadeiro exige uma força que nem sempre queremos evocar.
Acusar forças externas traz alívio imediato. Deus quis assim. O Diabo atrapalhou. O destino nos pregou uma peça. Tudo isso parece mais suportável do que encarar a responsabilidade crua dos próprios passos. A culpa, transferida, vira analgésico. E quem de nós nunca se automedicou emocionalmente para suportar o gosto amargo de um caminho mal trilhado?
O problema é que essa prática, tão comum quanto confortável, cobra seu preço. Ao terceirizarmos o controle das nossas decisões, diminuímos a própria agência sobre a vida. E, com o tempo, vamos acreditando na narrativa que criamos. Passamos a viver como se fôssemos peões num tabuleiro de forças ocultas, resignados, esperando que a sorte — ou o céu — nos redimam.
Essa postura, embora compreensível, corrói a autoconfiança de forma lenta e precisa. Tornamo-nos especialistas em justificativas e aprendizes de nós mesmos. A autoestima não floresce no terreno da desculpa. E quanto mais cultivamos a crença na interferência externa, mais nos afastamos da potência de reescrever a própria história.
Não se trata de negar os imprevistos, os azares e os ventos contrários. Eles existem, claro. Mas transformá-los em protagonistas eternos da nossa narrativa é abdicar do protagonismo que nos cabe. Acontece que o ser humano, esse primata engenhoso, ainda resiste à ideia de que o livre-arbítrio, além de privilégio, é um fardo.
E talvez seja exatamente aí que reside a ironia da vida: buscamos liberdade, mas fugimos da responsabilidade que ela exige. Inventamos mitos, demônios e destinos apenas para suavizar o peso das escolhas. Quando, no fundo, sempre soubemos — mesmo que a contragosto — que ninguém tropeça por ordem divina. Tropeça porque escolheu o caminho… ou porque caminhava distraído.






