Estar de bem com a vida é como uma orquestra: só funciona quando o ritmo não nos atropela, a harmonia não desafina e as pausas chegam antes de alguém desmaiar no ensaio.

Estar de bem com a vida é como reger uma orquestra ligeiramente indisciplinada. Cada instrumento tem personalidade própria, insiste em tocar no seu tempo e jura que está afinado. Nós, no centro do palco, tentamos coordenar a sinfonia sem deixar que o trompete do drama pessoal cubra o violino das pequenas alegrias.

O ritmo, por exemplo, adora pregar peças. Às vezes acelera como se tivesse tomado café demais; noutras, arrasta-se feito segunda-feira preguiçosa. E nós seguimos ali, balançando a batuta imaginária, tentando não ser atropelados pela correria nem engolidos pela lentidão exagerada das horas que teimam em não passar.

A harmonia também merece um capítulo à parte. Ela vive num estado de instabilidade poética: quando os afetos sobem, os compromissos descem; quando o humor melhora, a bateria da energia resolve piscar. É como se nossa partitura fosse escrita por um compositor genial… e ligeiramente caótico. Ainda assim, quando tudo encaixa, dá aquela vontade de aplaudir de pé.

As pausas, então, são verdadeiras joias raras. Pouca gente percebe, mas são elas que impedem que alguém caia duro no meio do ensaio. Uma pausa bem colocada é quase um milagre rítmico: abre espaço para respirar, reorganizar as ideias e impedir que o maestro interno surte diante da percussão das demandas diárias.

E há, claro, o encanto do improviso. Porque, mesmo com toda a preparação, sempre aparece um triângulo tocando fora de hora, alguém espirrando no solo principal ou um clarinete emocionado demais. Nesses momentos, descobrimos que parte do charme da vida está justamente nessa desordem melodiosa.

No fim, a nossa orquestra não precisa ser perfeita. Basta que ela consiga produzir aquele som gostoso que vibra por dentro, mesmo que um ou outro músico erre a entrada. Afinal, estar de bem com a vida é isso: conduzir a própria sinfonia com leveza, humor e certa tolerância aos instrumentos que adoram desafinar quando menos esperamos.

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Conheça o Jojo

Filósofo nas horas vaga, tem uma curiosidade inata pelo comportamento humano, realizando paralelos muito instigantes entre o ser humano e a evolução das espécies, tema sempre muito presente em todas as suas palestras e cursos, e muito apreciada pelo seu público.

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