Sim, é isso. Um rascunho. Um desses papéis encardidos que insistem em resistir ao lixo. Nele, rabiscamos projetos, arrancamos folhas, voltamos atrás, emendamos trechos com setas apressadas. E, mesmo assim, seguimos. Há uma certa teimosia em continuar escrevendo, ainda que o texto nunca chegue à tal versão final.
Porque, verdade seja dita: não existe versão final. O que temos são versões parciais de nós mesmos, esboçadas com o que nos acontece e com o que escolhemos sentir sobre isso. O que nos transforma não é o fato em si, mas o traço que ele imprime na folha fina da nossa existência.
Às vezes, reagimos com elegância. Outras, tropeçamos nos próprios impulsos e derramamos tinta demais sobre o que bastava um ponto. O curioso é que ambos os movimentos contam. Os acertos conferem forma. Os tropeços, textura. E há beleza nos dois.
O mundo não colabora muito. Ele chega tarde, sem avisar, muda as regras no meio do parágrafo. Um evento caprichoso aqui, outro brutalmente inevitável ali. E nós, com a caneta na mão, tentando não borrar o que já estava mais ou menos alinhado. Como se fosse possível evitar o borrão.
Mas não se trata de evitar. Trata-se de incluir. Dar um jeito de fazer com que até os rabiscos mais desgovernados se tornem parte da composição. Porque, no fundo, o que a vida nos entrega é matéria-prima: o rascunho é nosso. E é essa ousadia de escrever por cima do incerto que nos distingue.
Seguimos, então. Corrigindo frases antigas, reformulando intenções, mudando de assunto no meio da sentença. Não por desatenção, mas porque a vida muda mesmo. E, quem sabe, o segredo seja esse: aceitar que a obra nunca estará pronta. Mas que, mesmo assim, vale cada linha escrita.






