Quando tudo é pra ontem, nós nos percebemos correndo, executando nossas tarefas atabalhoadamente. O curioso é que, nesse tumulto, o essencial fica oblitado. Ele prefere uma mente mais focada, que saiba discernir o importante do urgente.
Nós, porém, adoramos dramatizar o agora. Transformamos qualquer detalhe em assunto urgente, como se o universo inteiro estivesse à beira de um colapso caso não respondêssemos imediatamente a tudo. Nessa ópera improvisada, o trivial veste capa de super-herói, e o importante se recolhe como um sábio que entende que barulho não é sinônimo de relevância.
Há momentos em que percebemos que vivemos no modo “corre que o mundo acaba na terça”. É um ritmo curioso, quase cômico, em que nós mesmos alimentamos a ilusão de que cada microtarefa é um meteoro em queda. Enquanto isso, o essencial — imperturbável — pede um café, cruza as pernas e aguarda nosso retorno do frenesi.
E é justamente nessa espera que mora uma espécie de ironia elegante. Porque o importante sabe que cedo ou tarde nós voltamos para ele, meio cansados, meio tontos, mas sempre em busca do que realmente sustenta nossas histórias. Ele não reclama, não faz escândalo, só continua ali, firme, pois em algum momento desta dança aleatória das urgências, ele emergirá, exigindo de nós a atenção meritória.
Nós, por nossa vez, seguimos tropeçando entre prioridades inventadas e obrigações que se multiplicam como coelhos. É engraçado notar como conseguimos lotar nossos dias de coisas que não têm peso, mas carregam uma pressa teatral. Talvez seja essa mania nossa de enfeitar o irrelevante com holofotes.
No fim, quando o turbilhão se acalma, percebemos que o essencial nunca saiu do lugar. Apenas esperou, com um café morno e a serenidade de quem sabe que nós sempre retornamos. Não porque somos disciplinados, mas porque, entre tantas corridas, reconhecemos que há coisas que não gritam — mas sustentam tudo.






