Sempre faremos comparações. É instintivo. O diabo é que sempre elas colocam lupa na vida dos outros e microscópio na nossa.

A comparação é daquelas manias antigas que grudaram na espécie como tatuagem mal pensada. Nós nem percebemos quando ela chega, já entra colocando lupa na vida alheia e microscópio na nossa. É um hábito tão automático que parece aplicativo pré-instalado no cérebro, difícil de deletar e sempre atualizando sem pedir licença.

O problema começa quando esse costume inocente resolve brincar de vilão. O que era curiosidade vira dramalhão. Muitas vezes, basta alguém brilhar um pouco mais para nossa cabeça escrever uma novela inteira, com figurino, trilha sonora e aquela pontinha de desconforto que insiste em fazer hora extra.

E que figura curiosa é a inveja. Ela surge com cara de visita educada, mas logo empurra móveis, comenta a decoração e cutuca nossa autoestima como quem testa colchão novo. Um verdadeiro agente do caos emocional, sempre lembrando que a vida do outro parece polida demais para ser verdade.

Enquanto isso, seguimos acreditando que o vizinho vive capítulos extraordinários, enquanto os nossos parecem rascunhos. Esquecemos que o palco dele tem iluminação profissional, edição e efeitos, enquanto o nosso vem direto da luz fria da realidade. A comparação adora esse truque visual; vive disso.

E o curioso é que mantemos esse teatro interno mesmo sabendo que a plateia somos nós. Repetimos a mesma peça, temporada após temporada, como se existisse um troféu invisível para quem sofre mais com o sucesso alheio. Um gasto de energia monumental, mas a mente adora essa dramaturgia.

No fim, comparar é só um velho truque evolutivo tentando atuar no século XXI. Ele não sabe que virou meme. Nós até rimos disso — quando não estamos ocupados ajeitando o cenário imaginário onde o outro parece vencer uma competição que ninguém está disputando

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conheça o Jojo

Filósofo nas horas vaga, tem uma curiosidade inata pelo comportamento humano, realizando paralelos muito instigantes entre o ser humano e a evolução das espécies, tema sempre muito presente em todas as suas palestras e cursos, e muito apreciada pelo seu público.

Jojo nas redes

💬 Precisa de ajuda?